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Faz 19 anos que vivo com artrite reumatoide. E vivo muito bem, obrigada. Uma crise aqui, outra acolá e a vida segue, até porque a vida é muito mais que isso.

Em 1997, quando eu tinha 25 anos e acabava de dar à luz meu segundo filho, recebi o diagnóstico de artrite reumatoide. Doença crônica, autoimune, sem cura, ataca articulações, causa deformidades, limita movimentos, compromete fígado, pulmão, olhos.  Algo bem assustador em qualquer época da vida, mas quando você tem 25 anos, uma filha de dois anos e um bebê recém-nascido, é apavorante.

Senti medo, revolta, perguntei por que comigo, deprimi, resisti, sofri. Foi uma fase difícil. Uma fase longa e difícil que passou, como tudo passa.  Você já ouviu dizer que a dor é inevitável e o sofrimento é opcional? Posso afirmar que é assim mesmo. Optei por não sofrer, por não deixar que a doença se tornasse o centro do meu universo.

O sofrimento se foi e a dor ficou, é minha companheira há 19 anos e fui aprendendo a lidar com ela.Ela passa algum tempo sem dar a caras e de repente chega chegando. Aí a gente conversa, tenta se entender. Eu pergunto o que ela veio me trazer, ela  às vezes responde aos gritos, às vezes com sussurros ou simplesmente se cala. Eu a observo, sinto como ela quer ser tratada, peço ajuda quando não dou conta de hospedá-la sozinha. A gente vai convivendo, até que ela se vai, sem data marcada para voltar.

A dor acabou se tornando uma mestra, uma guia. Foi ela quem me conduziu ao caminho do autoconhecimento, foi ela quem me estimulou a me olhar, ir mais fundo, conhecer os padrões, as crenças e os condicionamentos que orientam meus pensamentos, minha forma de viver, minhas escolhas.

O cuidado que tenho com o meu corpo também devo a ela. Vivo em movimento. Não permito que a rigidez e a fadiga, que em conjunto com a dor formam o tripé da artrite, me paralisem. A atividade física é fundamental para me manter estável, equilibrada e forte. Preciso de força muscular para amparar as articulações debilitadas.

Tomo medicação sistematicamente desde que fui diagnosticada. Pra contrabalancear, cuido com carinho da minha alimentação.  A dobradinha atividade física+alimentação equilibrada é vital pra manter meu corpo bem.

Como tive a felicidade de encontrar bons médicos e iniciar o tratamento logo que a doença foi diagnosticada, tenho poucas lesões articulares e praticamente nenhuma limitação.

E tão importante quanto cuidar do corpo físico, aprendi nesses anos que é preciso cuidar do corpo mental, emocional e espiritual. Somos um ser integral e, geralmente, o físico serve para sinalizar o que não vai bem em outros níveis. Daí a importância de se conhecer, de se observar, de ir além do analgésico, que pode apenas estar afastando de você um mensageiro valioso.

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As pausas necessárias

Nas crises, como a que vivo no momento, sinto dor, acentuam-se rigidez e fadiga. Nessas fases, faço adaptações, deixo as atividades de impacto fora da minha rotina,  diminuo o ritmo, entro em “stand by”.

Como a natureza, que alterna  ciclos de expansão e de contração, nós também temos nossos períodos de introspecção e de extroversão, de aceleração e repouso. A artrite me ensinou a respeitar essa necessidade que tenho de me recolher, de dar pausas, de descansar. Até ela aparecer, nada me segurava, vivia numa ansiedade sem fim, pensando o tempo todo no que precisava fazer depois.

A calma e a tranquilidade que encontrei, a serenidade com que tento encarar a vida, a habilidade que desenvolvi de respirar e relaxar mesmo quando o mundo ao meu redor parece desmoronar, foi conquistada num longo processo que teve início com a minha indignação em ser portadora dessa doença.

Infelizmente eu precisei da artrite reumatoide, um gatilho doloroso para aprender a viver um momento de cada vez,  mas nem todos precisam.

Se você se percebe ansiosa, preocupada, pensando demais, cansada, acelerada, PARE. Olhe com amor pra você, desacelere, se dê momentos de silêncio, fique sem fazer nada, entre em contato com a natureza, respire. A pausa é fundamental para a nossa saúde física, mental e emocional.

Se você quer entender melhor o que é a artrite reumatoide, clique aqui.

Com amor,

Marília Lopes

 

 

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