PARA CAROLINA

 

Uma carta de intenções, uma forma de enviar para o Universo aquilo que desejo para minha filha que hoje faz 21 anos. Estas são, também, as minhas aspirações para todos os seres. 

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A cada aniversário seu, comemoro mais um ano como mãe.

Com você nasceu a melhor parte de mim.

Há 21 anos, quando te vi pela primeira vez, me surpreendi com a sutileza do que eu sentia. Esperava uma emoção gigantesca, o amor transbordando em mim. Não foi assim.

Nosso amor chegou de mansinho, não num rompante. Não foi amor à primeira vista.

Enquanto te carreguei dentro de mim, sentia uma doce responsabilidade pelo ser que chegava neste mundo através do meu corpo, mas ainda não era o amor que eu esperava.

Amor chegou no dia-a-dia, no toque, no olhar, no leite.

Amor chegou e cresceu, cresceu junto com você e continuou crescendo quando você já não mais crescia.

Amei o bebê, amei a criança, amei a menina e a moça, amo a mulher que você se tornou e amarei o que você vier a ser.

Toda a sua história vive na minha memória. Aqui, dentro de mim, estão todas as Carolinas que você já foi.

Hoje, pensei em muitas de formas de celebrar esses 21 anos à distância. Cismei de te dedicar palavras  acreditando no imenso poder que nelas existem e esperando que cada uma encontre abrigo em ti e se torne realidade.

Vou  usar as letras pra desenhar meus desejos, minhas intenções e minhas bênçãos para você:

Quero que conheça o AMOR de todas as formas. Amor por você, amor pelo próximo, amor pelo Divino e por todas as suas criaturas. Que você dê e receba amor sempre;

que tenha CONSCIÊNCIA de que é potencialidade pura e que tudo é possível a partir da sua vontade;

que experimente a CONEXÃO com a sua essência luminosa, com a presença divina que há em você e com a energia amorosa de seus mestres e guias espirituais, que se sinta protegida, segura e amada;

que a GRATIDÃO e CONTENTAMENTO façam parte de ti. Seja grata pelo que é, pelo que tem, por tudo que vem ou vai e saiba que nada é por acaso e há um propósito para tudo;

que viva a ALEGRIA, que é o alimento da alma.  Divirta-se, celebre, dance, brinque, encontre a criança que há em você e cuide sempre dela. Saiba rir de si mesma, saiba rir da vida e para a vida;

que faça SILÊNCIO, ouça seu coração, só ele sabe o que é bom pra você. Dê pausas. Respire. Se observe. Medite.

que você viva sem EXPECTATIVAS e sem CERTEZAS, elas abortam as surpresas da vida, nos  forçam a ver o mundo através do que já existe na memória, impedem novos olhares ;

que você sinta a energia de DEUS em tudo o que há e que aprenda com a mãe natureza a SER:

ser RIO e fluir, movimentar-se, transformar-se, não se apegar às formas.  Lembre-se que a mudança é a própria vida;

ser TERRA, terreno fértil a nutrir  ideias, sentimentos, relações. Amorosamente, acolha o novo,nutra  o que deve permanecer e aceite as mortes necessárias;

ser FLOR e oferecer ao mundo o que há de melhor em você. Aprenda com elas a não possuir, não acumular: nem coisas, nem conhecimento, nem experiências, nem dores, nem pessoas. Distribua seu talento, seu amor, seus dons;

ser ÁRVORE e respeitar suas raízes: olhe pra traz e seja grata ao que veio antes de ti, honre a sua historia, a sua família, os seus antepassados. Cresça em direção ao alto, de onde emana o poder divino que te sustenta. Permita-se ser alento aos que precisarem da sua sombra e dos seus frutos;

ser FOGO que ilumina, que aquece e que transmuta. Que você seja fonte de luz, sabedoria, calor humano. Que saiba transformar as adversidades em aprendizagens.

Por fim, quero que você se ame completamente e incondicionalmente, que viva no AQUI e no AGORA ciente das infinitas possibilidades que existem em você e que seja feliz como escolher ser.

E assim É!

Lá do fundo do meu coração,

Marília Lopes, mãe da Carolina

 

SOU PERFEITA SEM MODELADOR

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Hoje me deparei com uma propaganda de lingerie no Facebook. Uma foto de uma mulher magra vestindo apenas um modelador e a frase: VOCÊ PERFEITA.

Me peguei pensando sobre o assunto: o que é ser perfeita? um modelador teria a capacidade de me APERFEIÇOAR ou apenas de ESCONDER o que considero imperfeição?

Existe perfeição? Ou existe um padrão criado sei lá por quem e uma indústria tentando, o tempo todo, nos convencer de que precisamos nos encaixar.

Eu não quero participar dessa brincadeira de entrar no quadrado. Escolho me aceitar e olhar com muito amor para o que eu sou, para o corpo que eu tenho.

Eu escolho ver a perfeição que há em mim.

Eu sou perfeita com ou sem modelador.

Sou perfeita do jeito que sou. Sou perfeita com celulite, pneuzinhos e flacidez.

Eu sou perfeita quando acordo, quando saio do banho, com os cabelos molhados, despenteados ou suados.

Eu sou perfeita maquiada ou de cara lavada, produzida ou de pijama.

Carrego neste corpo 43 anos de história e muitas marcas. Tenho um orgulho imenso de cada registro que ele contem.

Se meus pés falassem, eles contariam que sofri uma queda aos quatorze anos e tive uma luxação mal cuidada no pé esquerdo. Eles falariam sobre uma artrite reumatóide que chegou na minha vida cedo demais, atacou severamente um tornozelo e vem me ensinando, com muita dor, a importância de me flexibilizar. Mas esses pés falariam também de SUPERAÇÃO. Falariam de uma peregrinação de 170 km a pé até Aparecida. Falariam do sonho realizado de correr e falariam de como cada passo foi importante pra me trazer até onde estou.

Minha barriga, muito longe de ser um tanquinho, contaria a história mais importante de todas: a de dois seres lindos que ali, nas suas entranhas, foram gerados. Ela traz, além da marca das cesáreas, a marca do amor e do medo que nasceram junto com meus filhos. Ela fala sobre emoção, aceitação, acolhimento, ansiedade e alívio. É ali que estão guardadas as minhas melhores memórias.

Meus seios —bem diferentes do eram antes de alimentar meus bebês — discorreriam sobre o tempo que doei e as rachaduras nas primeiras mamadas. Sobre o toque das mãozinhas nos meus cabelos e as noites sem dormir. Sobre cansaço, quilos perdidos e roupas cheirando a leite. Mas deles você ouviria também lindas histórias sobre o mar de carinho em que eu mergulhava cada vez que me entregava à amamentação e sobre os olhares mais amorosos e sinceros que recebi em minha vida.

Meus punhos falariam da minha teimosia e arrogância que resultaram em lesões articulares irreversíveis porque, em algum momento, resolvi não mais me medicar. Esses punhos relatariam meses de depressão e dor, mas gritariam muito alto: ISSO TAMBÉM PASSOU!

E os ombros? esses carregaram por muito tempo o peso da responsabilidade excessiva e da necessidade de controle. E de tanto esforço, de tanto acreditar que precisavam carregar o mundo, eles cederam, quebraram. Mas eles também me ensinaram o valor das parcerias, o quanto é bom ter com quem contar, dividir, e como a vida foi generosa me oferecendo muitos irmão, amigos e um companheiro incrível.

Meus cabelos, com seus primeiros fios brancos, sussurram nos meus ouvidos que o tempo está passando, mas que não é a idade cronológica que importa, que o que vale mesmo é COMO MINHA ALMA ESCOLHE VIVER.

Minha face fala muito de mim. As linhas de expressão entregam que passei muito tempo “PRÉ-OCUPADA”, acreditando que tudo estava nas minhas mãos e dependiam só de mim pra funcionar bem. Custou pra eu aprender a soltar, a entender que existe uma força superior que rege tudo e que a mim basta viver um momento de cada vez e confiar que tudo é exatamente como deveria ser.

Nesse corpo imperfeito e cheio de memórias, pulsa a VIDA e a PERFEIÇÃO de tudo que foi necessário pra eu ser quem eu sou.

EU SOU PERFEITA SEM MODELADOR. Nada vai modelar minhas experiências ou disfarçar as marcas que elas deixaram em mim.

Com amor,
Marília Lopes

O PRECONCEITO NOSSO DE CADA DIA

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Onde você guarda o seu preconceito?

O meu fica bem escondidinho e aparece quando eu menos espero. E ele mostrou suas garras quando ouvi rap pela primeira vez. Julguei, menosprezei e errei feio.

Meu universo musical sempre foi restrito e básico. Não tenho lembranças de músicas na minha infância. O ruído da casa dos meus pais sempre foi o da TV, ligada o dia todo.

O rock, principalmente nacional, foi a trilha sonora da minha adolescência vivida nos anos 80.

Já estava na faculdade quando comprei meus primeiros LP´s. Foi nessa época que aprendi a ouvir os tropicalistas e me apaixonei pelo Chico.

Meu marido exerceu grande influência na minha formação musical. Foi ele quem me apresentou quase tudo que gosto hoje.

Na nossa casa sempre tem música e é assim desde que nos casamos, há 21 anos.

Foi nesse contexto que o João Victor -nosso filhote – nos apresentou o rap.

De cara eu não gostei. Recusei. Critiquei.

A batida me parecia agressiva demais e o preconceito era a voz mais alta nos meus ouvidos.

Mas fui vencida e convencida a baixar a guarda, jogar fora as idéias pré-concebidas e me entregar ao som.

Eu dei a mão à palmatória e todo o meu respeito aos que dão voz às minorias e resistem ao status quo.  Gabriel, o pensador, Criolo e Fábio Brazza são alguns dos cantores que expressam em suas músicas o que eu gostaria de falar, de escrever.

Não é todo rap que eu aprecio, mas já quebrei aquela resistência inicial de nem ouvir o que diziam.

Confesso que ainda não é o som que eu coloco pra ouvir. Mas gosto quando está tocando, gosto das reflexões que desperta em mim, gosto de pensar que a poesia e a filosofia desses rappers alcançam meninos e meninas invisíveis aos nossos olhos.

Quando ouvi a música Hei João, de Fábio Brazza com participação do Arnaldo Antunes, pensei: ele está falando por mim, é uma manifestação do que eu considero verdade e do que tentei ensinar pras  minhas crias.

Rap. Mais um preconceito vencido!

Com amor,

Marilia Sáber

Aqui tem a letra e o clipe:

Hei João 

Hey joão
Vencer não quer dizer cifrão
Não ligue pros comerciais
Cuidado com a televisão, hey joão
Hey joão
Tão te vendendo ilusão
Nem sempre o que ganha é mais
Nem sempre o que é mais é bom

Quem foi que disse que isso é um jogo
Quem que disse hein joão?
Que você não é ninguém se for o vice campeão?
Como se não existisse comunhão
Como se tudo na vida resumisse
Então a uma mera disputa
E da fatia do pão quem desfruta, diz truta
Você acha isso certo então me desculpa
A sociedade diz quer ser feliz luta
Mas como, se eu não nasci com o talento do batistuta?
Também não sou filho de algum abílio diniz
Tampouco nasci pra ser uma meretriz, puta
Mesmo não tendo tudo aquilo que eu sempre quis
Como jadakiss mantenho minha raiz bruta
Perder ou vencer, não tem escapatória
A sociedade torna essa modalidade obrigatória
A disputa cria divisórias, contradições notórias
O luxo do burguês é a escassez da escória
Escolha, não existe no final da história
Competição é desleal e predatória
O esforço não define a posição não
João ninguém aqui nunca vai ser joão doria
Por isso eu não quero vitória
Enquanto a intenção final for o capital, a glória
Não, eu não quero vitória
Será que você não vê
Ostentação material é ilusória

Hey joão
Vencer não quer dizer cifrão
Não ligue pros comerciais
Cuidado com a televisão, hey joão
Hey joão
Tão te vendendo ilusão
Nem sempre o que ganha é mais
Nem sempre o que é mais é bom

(o senhor e a senhora
Já viveram a sua glória
Seu tempo acabou, agora
A escória faz história)

Qual a chance o menino que a sociedade sabota tem?
Insano e sem ensino bota na febem
É por isso que lota a febem
Ninguém quer investir em educação corrupção
Irmão e a gente vota em quem?
Ei você idiota que arrota nota de cem
Que estudou, é poliglota, fala bem
Quer reclamar da cota hein mas nota
Bem que chance remota tem
Do moleque passar do corte da nota do enem?
Quer salvar o mundo então vai adota um neném
Fica ligeiro parceiro dinheiro não brota do além
Sem chacota a ideia é outra
Rap nacional como snj
Sabota olha só o poder que a nossa frota tem
Quem é mais merecedor: o empresário ou o professor?
Quem define o salário do trabalhador?
Será que é o esforço mesmo o principal denominador
Ou a sociedade que impõe o valor, e te convence
Que aquele que trabalha vence
Ela quer que você ganhe? não, ao menos que pense
Que é capaz, pois pra ela trás vantagem
Trabalho e consumo joão
É o que sustenta a engrenagem

Hey joão
Vencer não quer dizer cifrão
Não ligue pros comerciais
Cuidado com a televisão, hey joão
Hey joão
Tão te vendendo ilusão
Nem sempre o que ganha é mais
Nem sempre o que é mais é bom