O TABU DA ANSIEDADE

Um texto da minha filha, Carolina Sáber, que está cada dia mais consciente da necessidade de se conhecer, de se observar e de como lidar com as emoções e com as sensações geradas constantemente em nós.

ansiedade1

Algo que me chama atenção nas pessoas com quem me relaciono e em mim mesma é o fato de não conhecermos ao certo o processo emoção – sentimento – pensamento que existe em nós e nos motiva a tomar atitudes o tempo todo. Já vi em vários filmes e séries encontros de narcóticos e alcoólicos em que as reuniões começam com uma apresentação padrão: “Oi, meu nome é X e eu sou alcóolatra.” E isso começou a fazer sentido pra mim quando entendi que essa frase curta e impactante é o reconhecimento de algo que você considera um problema e está disposto a tratar.

Quando falamos de ansiedade acredito que o caminho seja o mesmo, de identificação do sentimento, de perceber o que acontece no seu corpo quando você a sente e do motivo pelo qual isso é desencadeado. Para exemplificar do que eu estou falando quando uso a palavra “ansiedade” vou descrever algumas situações minhas e de pessoas que conheço para que saibamos que estamos tratando de conceitos semelhantes.

Falar de ansiedade, para mim, é falar de crises de choro e desespero por não conseguir fazer um trabalho da faculdade que seria possível concluir em uma hora em circunstâncias comuns, é falar de insônia, de acordar de madrugada com uma lista de afazeres passando repetidamente na cabeça, obrigações que qualquer pessoa resolveria de maneira tranquila, mas que gera um estresse gigante pra quem é ansioso, é falar ainda de tremor nas pernas e de suor nas mãos, é falar de planejar uma viagem com meses de antecedência e sofrer pelos detalhes.

Falar de ansiedade é falar também de ansiedade social. De pensar inúmeras vezes antes de expressar uma opinião e depois pensar mais várias se realmente falou aquilo da melhor maneira;  é falar sobre ficar nervosa antes de uma festa e pensar com quantas pessoas desconhecidas vai ser necessário conversar, é falar de mal estar, de embrulho no estômago e vontade de vomitar quando existe a possibilidade de falar em público; é pensar em desmarcar compromissos, é a vontade de não sair de casa para não ter que explicar para as pessoas o porquê de estar se sentindo assim. Ou seja, ser ansioso é se privar para não sofrer.

Cada indivíduo possui maneiras de expressar essa ansiedade que existe, de alguma forma, dentro de todos nós. Você pode se identificar com uma, alguma ou todas as condutas descritas acima, ou pode passar por outras situações completamente diferentes.  Mas fato é que ansiedade é um sentimento/emoção que surge antes da situação realmente acontecer. É um sofrimento antecipado e, portanto, desnecessário mas que deve ser olhado com carinho, amor e atenção.

Importante mencionar que na sociedade atual, com a quantidade de estímulos a que somos submetidos, o sem fim de tarefas das quais temos que dar conta, prazos e mais prazos, provas finais, trabalhos a serem entregues, e pra completar, uma cobrança social e individual que sejamos perfeitos, é natural que estejamos criando um mundo onde a ansiedade se prolifera.

A partir do momento que sabemos que a ansiedade existe e que isso é algo inerente ao ser humano, em maior ou menor grau, é mais fácil e menos dolorido lidar com essa emoção. Eu já senti ansiedade que doía, doía no meu corpo e naquele momento eu faria qualquer coisa para me livrar dela, e horas depois eu já estava bem e me sentia capaz de seguir minha vida, sem precisar esperar até que não existisse mais nenhum resquício em mim.

A identificação é tão necessária porque só assim é possível lidar com essa sensação  e não deixar que ela domine sua vida. Somente dessa maneira, a meu ver, é que podemos chegar ao ponto de nos policiar, e pensar: “opa, estou tendo estas atitudes por causa da ansiedade”. Tendo consciência que ela existe em nós, e não exclusivamente em mim ou em você, é que poderemos não colocar tanta importância nesse sentimento que é passageiro. Mas sim, olhá-lo como um visitante, que chega, faz uma bagunça, e vai embora. E posso falar com certeza: vai! Pode ser que fique algo pra ser arrumado, umas emoções para serem colocadas no lugar e questionamentos sobre o quão natural isso pode ser se causa tanto sofrimento.

Vale lembrar que o sofrimento faz parte da nossa experiência humana, que aceita-lo e deixa-lo partir naturalmente faz parte do fluxo da vida. Assim como a ansiedade! Se a olharmos, identificarmos aquilo que a gerou e conseguirmos esperar que ela passe já será uma conquista e tanto. Com isso vamos aprendendo que não é necessário esperarmos ela não mais existir para sermos felizes e realizados.

Nesse mundo onde impera a disputa, o aumento da produtividade, e que as pessoas são avaliadas mais pelo seu rendimento do que pela presença naquilo que fazem, falar de ansiedade se tornou sinônimo de falar de fraqueza e incompetência, mas isso não condiz com a realidade. Será que dar conta do recado é viver em desespero e angustiado, enchendo a agenda de compromissos, tentando atingir metas inalcançáveis e conseguindo, no máximo, uma gastrite nervosa, ou será que vai além disso?

Acredito que lidar com ansiedade seja um trabalho contínuo, diário, incessante e por vezes cansativo. É autoconhecimento, é olhar para você mesmo e entender seus processos, observar quais tipos de pensamentos são gatilhos para crises e aceitá-los, com amor e paciência, e transformá-los; é sair das crises de cabeça erguida e saber que você, sem dúvidas, dá conta do recado. Saber que você agora está mais forte e que uma emoção não vai ser capaz de te destruir se você aprender a lidar com ela. Vamos falar sobre ansiedade….

Carolina Sáber

 

SOBRE FEMINISMO E FEMININO

 

feminismo

Vivemos em tempos de rótulos, muitos rótulos. E dentro desse universo que dá nome a tudo, sou feminista. Sou feminista porque acredito na importância de TODOS terem os mesmos direitos, independente do gênero (e da raça, da orientação sexual, da crença religiosa).

Não considero mulheres superiores aos homens – isso é femismo. Não considero mulheres iguais aos homens – isso seria negar nossas singularidades biológicas, físicas e emocionais. Mas sinto a necessidade de vivermos em harmonia num ambiente onde, respeitadas as diferenças, todos tenham as mesmas possibilidades.

Já critiquei o movimento feminista por não ter conhecimento do que realmente se tratava. Infelizmente, existem mulheres que, sob a bandeira do feminismo, pregam o ódio aos homens, são extremistas e distorcem o conceito base do movimento que é a igualdade entre os gêneros.

Não podemos ignorar que, nas últimas décadas, o feminismo criou um o espaço super importante para que pudéssemos repensar nossa condição e falar sobre isso. Valorizo muito tudo o que foi conquistado desde Simone de Beauvoir até Jout Jout.

Preciso abrir um parêntese aqui, para você que não faz ideia de quem sejam essas mulheres:

Simone de Beauvoir, filósofa francesa, publicou em 1949, O Segundo Sexo, primeiro grande e detalhado ensaio sobre a condição da mulher. Apesar de Simone não ser feminista à época, o livro se tornou o mais importante trabalho de reflexão filosófica e sociológica sobre a mulher e ajudou a traçar os caminhos do feminismo a partir de então. O livro é uma análise sobre a hierarquia dos sexos e a opressão da mulher em termos biológicos, históricos, sociais e políticos.

Jout Jout é Julia Tolezano, jornalista brasileira de Niteroi/RJ, 23 anos, criadora do canal do youtube Jout Jout, Prazer. Um dos seus vídeos, NÃO TIRA O BATOM VERMELHO, atingiu 300 mil views no ano passado. No vídeo, Jout Jout fala sobre como identificar relacionamentos abusivos.

Mas, de qualquer forma, é necessário tomar cuidado com os estereótipos e as generalizações. Entendo que num contexto histórico e social,o homem é opressor e nós, mulheres, oprimidas.  Fazemos parte de uma sociedade patriarcal que enaltece o masculino e desvaloriza o feminino e eu já presenciei e vivi situações que demonstram essa desigualdade.

Sabemos que muitas mulheres sofreram, e ainda sofrem, todo tipo de abuso em virtude do machismo. Sabemos que o machismo está profundamente enraizado na nossa sociedade e que ainda há um caminho (que espero, seja curto) a ser percorrido para alterar essa realidade.

Mas eu ainda me incomodo com o discurso que desqualifica e culpabiliza o homem ou a mulher, de forma generalizada e automática, sem levar em consideração as peculiaridades de cada situação.  Homens são capazes de atrocidades. Mulheres são capazes de atrocidades. Homens são capazes de gestos nobres. Mulheres são capazes de gestos nobres. Não é o gênero que determina quem somos, mas nossa consciência.

E quando falamos de consciência, é importante lembrar que somos constituídos de energia. E que dentro de todos nós, homens e mulheres, há energia masculina e energia feminina. E que o equilíbrio entre essas energias é muito importante para a nossa saúde emocional.

Quando em desequilíbrio, esses princípios (masculino e feminino) se distorcem.

A energia feminina distorcida transforma a capacidade de receber, acolher, nutrir, intuir, entender,  em vitimismo, submissão, passividade. A energia masculina distorcida transforma a capacidade de ação em agressividade, em violência.

yin

Yin e Yang são conceitos do taoismo que representam a dualidade de tudo que existe no universo. Descrevem as duas forças fundamentais opostas e complementares que se encontram em todas as coisas: o yin é o princípio feminino, noite, lua, absorção, intuição. O yang é o princípio masculino, sol, dia, a luz e atividade.

Num mundo ideal, haveria equilíbrio entre as energias masculina/feminina. Num mundo ideal, os homens não se sentiriam protegidos e fortalecidos por um sistema que pisoteia o poder feminino. Num mundo ideal haveria amor e respeito de todas as formas.

Mas, no nosso mundo real, percebemos a carência da energia feminina, assistimos ao embrutecimento das relações humanas, baseadas essencialmente em características masculinas: a força, a disputa, a autoridade. Sentimos falta de colo, de acolhimento, de entendimento.

O papel da mulher na sociedade é alvo de atenção já há muito tempo. Mas, ainda hoje, há a crença de que as mulheres devem priorizar sua energia masculina para ascender profissionalmente, para enfrentar o mercado, para lutar pelos seus direitos. Acredita-se que ser feminina é ser frágil, vulnerável, meiga, doce e, consequentemente, sem perfil para certas profissões ou cargos.

Por tudo isso, a mulher foi abrindo mão da sua energia feminina para se equiparar ao homem.

Estamos sentindo as conseqüências desse processo. O mundo está carente da alma feminina, da energia feminina, do princípio feminino.

Todo esse desequilíbrio que vemos fora, reflete o que existe dentro de nós. A negação do feminino nos homens e nas mulheres.

E o que podemos fazer?

Começamos mudando aquilo que está ao nosso alcance: nós mesmas. Iniciamos o resgate do feminino em nós, do nosso poder de receber, acolher, gerar, nutrir e usar da nossa intuição.

Como?

Um caminho é fortalecer as relações entre nós, mulheres. Compartilhar nossas dores, nossos medos, nossa vida. Relembrar que um dia vivemos numa sociedade matriarcal, que valorizou nossos saberes, nosso corpo, nossa capacidade de curar a nós mesmas e aos outros.

É fácil?

Não! Mas é possível. E precisamos começar. É isso que eu procuro fazer quando escrevo. Geralmente, a criatividade nos conecta com a energia feminina – a arte, o artesanato, a dança, a música, a culinária. E o silêncio, a contemplação, o contato com a natureza. Não existe fórmula, procure por aquilo que te traga alegria, contentamento, gratidão. Ouça o seu coração e você saberá que está no caminho, sua alma será alimentada e te guiará.

Eu te convido a tentar.

E te convido a compartilhar suas experiências com o feminismo e com o feminino aqui. Conte pra nós como você se sente em relação a tudo isso.

Com amor,

Marília Lopes

P.S: se você, como eu, também não entende bem os termos utilizados pelo movimento feminista, dê uma olhada nesse quadro. Achei bem explicadinho:

captura-de-tela-2015-03-19-as-18-48-09